Educar com base no respeito ou na violência?

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Lia Vasconcelos

“Com bondade e respeito, eles nos ouvirão a maior parte do tempo. Com gritos e ameaças, eles nos ignoram, a menos que tenham medo de nós. E eu não quero que meus filhos tenham medo de mim”. Quem falou essa frase foi o médico espanhol Carlos Gonzáles em recente entrevista. Gonzáles, ferrenho defensor da amamentação e da criação com apego, é doutor em pediatria e especialista em amamentação, entre muitas outras coisas. É também autor de títulos fundamentais como “Bésame mucho – Como criar seus filhos com amor”, que já vendeu mais de 400 mil exemplares e já foi traduzido para, pelo menos, 12 idiomas. Ele, ainda na mesma entrevista dada à jornalista Rita Lisauskas em seu blog no Estadão, diz que educar as crianças sem colocá-las de castigo é até fácil e fez uma provocação: “você já puniu seu marido, seus amigos, seus funcionários? Não é verdade que quase sempre eles te ouvem sem a necessidade de um castigo? Com o castigo você não educa”.

Escolhi começar essa coluna com essa colocação de Gonzáles porque tem tudo a ver com os pressupostos da Parentalidade Positiva. Lembrei também que circulou esses dias pela internet um relato de uma pessoa que conta que tinha acabado de quebrar sua jarra de água e não ouviu ninguém gritar com ela por isso. Pelo contrário, perguntaram se ela não havia se machucado, deram papel para ela secar sua mesa e foram pedir rodo e pano para o pessoal da limpeza. E a pessoa termina o relato se perguntando porque das crianças exigimos perfeição.

Fiquei pensando nessa história e acho que nossa expectativa de perfeição (não pode derrubar, derramar, sujar, fazer birra, brigar, bater, responder atravessado…) em relação às crianças é uma das causas mais frequentes dos castigos e palmadas. Então, antes de mais nada, acho que cabe colocarmos a mão na consciência para pensarmos o que esperamos delas e se essa expectativa é justa com pessoas que estão no mundo há pouco tempo e estão, a cada dia, ganhando recursos para lidar com a vida e suas frustrações. Como estamos ensinando essas crianças a lidarem com esses momentos se usamos de violência para interromper o comportamento indesejado?

É fato que castigos e palmadas funcionam (pelo menos por um tempo…) no sentido de interromperem o mau comportamento imediatamente. Mas quais são os resultados a longo prazo? A Disciplina Positiva (DP) fala em quatro resultados da punição: ressentimento (“isso não é justo. Eu não posso confiar nos adultos”), retaliação (“eles estão ganhando agora, mas eu vou me vingar”), rebeldia (“eu vou fazer exatamente o contrário para provar que eu não tenho que fazer do jeito deles”) e recuo. Este pode acontecer por meio da dissimulação (“eu não vou ser pego da próxima vez”) ou da redução de autoestima (‘eu sou uma pessoa ruim”).

Além de a resposta violenta ao mau comportamento ferir uma relação que deveria ser baseada em respeito e confiança, uma criança que recebe castigos e palmadas pode decidir “eu sou uma pessoa má” e continuar a agir como tal. Ou ainda a criança pode se tornar bajuladora, ou seja, aquela pessoa viciada em aprovação externa. Por isso, precisamos pensar nos efeitos a longo prazo em vez de só pensarmos que a curto prazo funcionou.

Repito a pergunta que Jane Nelsen, uma das fundadoras da DP, faz em seu primeiro livro sobre o tema: “De onde tiramos a ideia absurda de que, para levar uma criança a agir melhor, antes precisamos fazê-la se sentir pior?”. Não é a primeira vez que reproduzo essa provocação em minhas colunas e não é à toa. Acho o questionamento muito potente para nos fazer pensar, como pais, que rumo queremos dar à educação dxs nossxs filhxs, pois como Nelsen mesma diz, a criança age melhor quando se sente melhor.

E essas duas máximas não valem também para nós adultxs? Vamos fazer um exercício de empatia? Pense na última vez em que você se sentiu humilhadx ou tratadx de forma injusta. Você sentiu que estava propensx a cooperar ou que estava melhorando? Imagino que não! Como nós, adultxs, as crianças não desenvolvem características positivas baseadas em sentimentos e decisões que resultam da punição.

Vamos agora pensar um pouquinho nas consequências lógicas? (exemplo: “se você não me obedecer, vai perder um brinquedo, ou um passeio”). Precisamos, antes de mais nada, entender que, muitas vezes, essas consequências nada mais são do que punição disfarçada. Rudolf Dreikurs, um dos pais da DP, já dizia: “quando usamos o termo ‘consequências lógicas’, pais frequentemente o interpretam como uma nova maneira de impor suas exigências sobre os filhos. As crianças veem isso como punição disfarçada”. As consequências lógicas sempre exigem a intervenção de um/a adultx.

Nelsen fala em consequências naturais, ou seja, é aquilo que acontece naturalmente, como o nome diz, sem nenhuma interferência dxs adultxs. Exemplos: você se molha quando está na chuva, passa frio se não leva casaco e a temperatura está baixa, ou ainda fica com fome se não come. Saímos do campo da chantagem e da ameaça em que, muitas vezes, a consequência lógica está baseada, e entramos no campo de ensinar as crianças a aprenderem lições de responsabilidade. Aqui, não adianta usar o “eu avisei…”. Para ser empáticx, você pode falar algo como: “aposto que é difícil ficar com fome (molhadx, tirar nota baixa…)”. Sei que pode parecer difícil, e é, porque queremos sempre livrar nossxs filhxs das frustrações, resgatando-os ou superprotegendo, mas esta é uma das maneiras mais eficazes de encorajar as crianças a se sentirem capazes.

Alguns pais e mães se equivocam ao acreditar que as crianças continuam a se comportar mal porque a punição não foi forte o suficiente e entram numa disputa imaginária achando que elxs têm que ganhar a “guerra”. Então, eles punem ainda mais severamente nos conflitos seguintes e um ciclo de violência se estabelece e se perpetua. Esses pais e mães agem do modo como agem porque acreditam que estão fazendo o melhor para seus filhxs, não tenho dúvidas. Mas volto a perguntar: e a longo prazo? Que futuro estamos construindo? É melhor educar a nova geração com base no respeito ou na violência? É muito potente nos darmos conta que está nas nossas mãos quebrar esse ciclo.

Novamente citando Gonzáles, ele diz, na mesma entrevista já mencionada: “todos os pais têm experiência. Mesmo que este seja nosso primeiro filho, temos experiência. Porque somos crianças há muitos anos. Você não se lembra dos seus dois anos, mas se lembra dos seus sete, dez ou doze anos. O que te fez feliz, o que te fez infeliz, o que você sentiu quando seus pais te abraçaram, o que você sentiu quando eles gritaram ou te puniram? Se ouvimos nosso próprio filho e a criança que fomos, e que ainda mora dentro da gente, é muito fácil saber do que nossos filhos realmente precisam”.

—> Leia todos os textos da coluna Parentalidade Positiva, assinada por Lia Vasconcelos.

por Lia Vasconcelos em colunas, Parentalidade Positiva.

Lia Vasconcelos é mãe de duas meninas e originalmente formada em Jornalismo e Ciências Sociais. Se encantou com os modelos da disciplina positiva e da parentalidade positiva e se certificou pela Positive Discipline Association (EUA) e pela Escola da Parentalidade (Portugal). Me encontre no @liavasco_educacao ou escreva para liavasco75@gmail.com para informacões sobre workshops.