A “mãe chinesa” não é tão louca assim

Lina Brochmann

Polêmicas à parte, o livro “Grito de guerra de uma mãe-tigre” de Amy Chua vale a leitura. A autora chinesa-americana descreve a rigidez como criou suas duas filhas e critica fortemente a forma como os ocidentais educam as crianças

O livro nos choca pela diferença cultural. Se para nós a infância é uma fase lúdica, de experimentos e liberdade, para os orientais é um treino para a vida adulta - nada de perder tempo brincando, dormindo na casa de amigos, participando do grupo de teatro da escola… a criança deve estudar para ser a melhor da turma (especialmente em matemática), ganhar medalhas de ouro nos esportes, estudar um instrumento para valer, obedecer aos pais…. E se você pensa que as filhas de Amy Chua a odeiam e são infelizes, veja aqui a carta que uma das meninas (que hoje estuda em Harvard) publicou defendendo a mãe, traduzido ao português pelo blog Mulher 7x7:

Querida Mãe-Tigre,

Você tem sido muito criticada desde a publicação de suas memórias,Battle Hymn of the Tiger Mother. Um dos problemas é que as pessoas não entendem o seu senso de humor. Eles pensam que você está falando sério sobre tudo, e que Lulu e eu fomos oprimidas por nossa mãe má. Isso é tão falso. A cada quinze dias, nas quintas-feiras, você nos desacorrentava e nos deixava brincar com jogos de matemática no porão.

Mas, sério, não é culpa deles. Nenhuma pessoa de fora pode saber como é nossa família na verdade. Eles não nos ouvem rindo das piadas uns dos outros. Eles não nos veem comendo nossos hambúrgueres com arroz frito. Eles não sabem quanto nós seis nos divertimos – os cães incluídos – ao nos apertarmos em cima da cama para debater que filme baixar para assistir.

Eu admito: tê-la como mãe não é bolinho [acho que essa é a tradução mais próxima para ‘no tea party’]. Gostaria de ter ido brincar com meus amigos em algumas ocasiões e gostaria de ter pulado algumas das lições de piano. Mas agora que tenho 18 anos e estou quase deixando a caverna do tigre, sou grata pela maneira como você e papai me educaram. E explico por quê.

Muitas pessoas acusaram você de produzir crianças-robô incapazes de pensar por si próprias. Bem, é engraçado, porque eu penso que essas pessoas são… bom, não importa. De qualquer forma, estava pensando sobre isso, e cheguei à conclusão oposta: acho que seu jeito rígido me forçou a ser mais independente. Desde cedo eu decidi ser uma criança fácil de ser educada. Talvez eu tenha puxado isso de papai – ele me ensinou a não levar em conta o que as outras pessoas pensavam e tomar minhas próprias decisões –, mas eu também decidi o que queria ser. Não me rebelei, mas também não sofri com todas as pedras e flechas de uma mãe-tigre. Hoje faço minhas próprias coisas – como construir estufas no centro da cidade, ouvir Daft Punk no último volume com Lulu no carro e forçar meu namorado a assistir O Senhor dos Anéis comigo de novo e de novo – desde que eu já tenha estudado piano.

Todo mundo está comentando sobre os cartões de aniversário que nós fizemos para você, e você rejeitou dizendo que eles não eram suficientemente bons. Engraçado como algumas pessoas estão convencidas que isso nos marcou por toda a vida. Talvez eu ficasse triste se tivesse colocado meu coração naquele cartão. Mas vamos encarar a realidade: o cartão era fraco, e você havia me pegado. Fiz em 30 segundos sem sequer apontar o lápis. Por isso, quando você rejeitou o cartão, não senti que você estava me rejeitando. Se eu realmente tivesse dado o melhor de mim em alguma coisa, você nunca jogaria de volta na minha cara.

Lembro-me de caminhar para o palco para uma competição de piano. Eu estava muito nervosa, e você sussurrou: ‘Soso, você trabalhou o mais duro que pôde. Não importa como vai ser sua apresentação.

Não sou a favor - nem de perto! - da metodologia oriental para criar nossos filhos, mas ler o livro me fez refletir que talvez um pouco de cobrança e limite pode ser bem bom. E você, o que achou do livro?