Como funciona o cérebro dos nossos filhos

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Lia Vasconcelos

​Não importa o nosso tempo de mãe/pai, não importa a idade dxs nossxs filhxs. A verdade é que é muito difícil lidar com birra, ataques de raiva e agressividade, seja a da criança de três anos, seja a dx pré- adolescente. Muitas vezes, não conseguimos ter sangue frio para lidar com a situação, ou oscilamos entre o acolhimento e o descontrole (nosso!). Simplesmente, não sabemos como agir.

Para além da fundamental auto-regulação (você conhece e consegue identificar seus gatilhos?) e da inteligência emocional, ter algumas informações sobre como nosso cérebro funciona pode ajudar. E, como diz Daniel Siegel e Tina Payne Bryson, no livro, “O cérebro da criança”, “conforme os pais se tornam mais cientes e emocionalmente saudáveis, seus filhos colhem tais recompensas e tornam-se igualmente saudáveis. Tal fato significa que integrar e cultivar nosso próprio cérebro é um dos presentes mais carinhosos e amorosos que podemos dar aos nossos filhos”.

E por que os autores falam em integrar o cérebro? Porque nosso cérebro tem muitas partes com funções diversas. O hemisfério direito é responsável pelas imagens, símbolos, pelo abstrato. É o nosso sentir. O hemisfério esquerdo é o nosso lado racional e lógico. É ele que estabelece padronização e ordem.

Ainda tem o andar de baixo que é o cérebro primitivo, sede das emoções e onde está a amígdala, e o andar de cima onde está o córtex pré-frontal que nos dá juízo.

A integração a que os autores de “O cérebro da criança” se referem é justamente coordenar e equilibrar as regiões separadas do cérebro. Birras, ataques de fúria e agressividade são fruto da perda dessa integração que precisa acontecer de forma horizontal, entre os hemisférios direito e esquerdo, e de forma vertical, entre as partes de cima e de baixo.

Quando a birra é do andar de baixo há muita energia sendo liberada. É a birra do descontrole. O melhor caminho é acalmar a criança (depois de termos posto a máscara de oxigênio primeiro na gente. Respirar profundamente costuma ser uma boa saída. Lembre-se que há olhos que observam como você se acalma. Suas ações modelam comportamentos) e levá-la para outro lugar. Conexão e redirecionamento, que são duas estratégias de integração, costumam funcionar bem nesse caso. Validar os sentimentos das crianças também é uma maneira de integrar os hemisférios direito e esquerdo do cérebro.

Já as birras do andar de cima são aquelas de manipulação e a criança geralmente se acalma como num passe de mágica quando não consegue o que deseja e, nesse caso, não há negociação, embora seja importante explicarmos os motivos que nos levaram a tomar a decisão que tomamos. Na birra do andar de cima a criança decide ter um chilique . Ela faz uma escolha consciente e consegue parar porque usa o cérebro do andar de cima que é capaz de controlar as emoções e o corpo, por isso uma boa conversa sobre limites e comportamentos adequados e inadequados cai bem nesse caso

Nosso cérebro só está maduro a partir dos 23 anos e ele é plástico, ou seja, ele se modifica fisicamente durante a vida, não apenas na infância. E o que molda nosso cérebro? As experiências que temos. Claro que os genes têm um papel fundamental em como as pessoas são, principalmente, em relação ao temperamento, mas muitas descobertas de diversas áreas da psicologia têm apontado que tudo o que acontece conosco – a música que ouvimos, as pessoas com as quais nos relacionamos, os livros que lemos, as emoções que sentimos, a educação que recebemos – afeta profundamente o modo como nosso cérebro se desenvolve.

Importante lembrar que não existem sentimentos não adequados. Todxs nós sentimos raiva, ódio, frustração, tristeza, inclusive nossxs filhxs. O que existem são comportamentos inadequados. Sentimentos são legítimos, sejam quais forem. O que precisamos é aprender e ensinar o que fazemos com eles.

Ninguém está falando que criar um/a filhx com cérebro por inteiro nos livrará das frustrações da mater/paternidade, mas ao entender como o cérebro funciona, você vai conseguir compreender melhor seu/ua filhx e responder de maneira mais eficiente a situações difíceis construindo uma base para a saúde social, emocional e mental de todxs na família.

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por Lia Vasconcelos em colunas, parentalidade positiva.

Lia Vasconcelos é mãe de duas meninas e originalmente formada em Jornalismo e Ciências Sociais. Se encantou com os modelos da disciplina positiva e da parentalidade positiva e se certificou pela Positive Discipline Association (EUA) e pela Escola da Parentalidade (Portugal). Me encontre no @liavasco_educacao ou escreva para liavasco75@gmail.com para informacões sobre workshops.