Criação e tradição

avatar de Maria Manuela Moog
Maria Manuela Moog

Eu sou a prima mais velha. Tão mais velha que os meus primos debochados me chamam de “Tia”. Eu não gosto nada disso, pois quero me entender jovem e ser a prima legal que vai dar conselhos e levá-los para tomar o primeiro drink. Mas a verdade é que de fato, mesmo com apenas pouco mais de dez anos de diferença, eu já sou de outra geração.

Às vezes, eu falo alguma coisa crente que estou abafando, que vou transmitir aquele conselho “daora” e quando eu percebo a carinha deles, vi que perdi o bonde… aquilo já passou! Não cabe mais na geração deles ou “pior”, vários Youtubers ou Influencers já haviam dado aquela “dica” ao ponto de esgotá-la.

Quando o conselho passa a ser substituído pela dica me vejo tendo que apelar para a filosofia, e aqui me apoio em um dos pais da modernidade: Walter Benjamin.

O que Benjamin diz é que no mundo moderno houve a perda da narrativa. Numa sociedade mais estável e linear, a narrativa garantia a transmissão e valorização dos conselho. Hoje, por tudo ser mais fragmentado, efêmero e passageiro os conselhos não parecem grandes coisas. Por isso tantas #dicadodia, #anotaai #ficaaddica. Pontual, prático e já parte para o próximo!

As gerações anteriores, inclusive a minha - que ainda ouve o barulho irritante da internet discada - pode achar isto um mau sinal. Mas o que Benjamin também nos aponta é que o avanço da técnica não é necessariamente “bom” ou “mau”. A ruptura com a narrativa entre tradições nos faz andar sobre território instável mas também abre espaços para criar.

Escrevo isso tudo pois como “Prima-Tia” consigo imaginar o desafio que é para os pais de hoje em dia criarem seus filhos - que parecem não ser de uma mas três ou quatro gerações distantes (já que a apreciação de espaço-tempo hoje é tão particular).

Eu me desafio para não ser a “prima-tia” chata que fica “Ah! Mas na minha época era bem melhor”, como se não restasse nada de bom para eles aproveitarem. Também não quero ser aquela pessoa “Nossa! Hoje em dia é tudo isso e aquilo, este mundo está perdido”, não me dando conta do lado bom da maçã. Me esforço para sair da postura de “tia conselheira”e me aproximar da postura “prima que compartilha e descobre”.

Por fim, escolhi esta imagem para ilustrar o texto de hoje pois ela evoca uma ideia que eu acredito ser a mais interessante para transpor esta barreira geracional: viver o momento e educar pelo exemplo.

por Maria Manuela Moog em colunas, arte e Percepção.

Maria Manuela Moog é graduada em Artes Cênicas, pós-graduada em Arte e Filosofia pela PUC-Rio e atualmente cursa o Mestrado na Universidade Nova de Lisboa. Se encantou pelo universo artístico aos sete anos quando interpretou um duende na peça de teatro da escola, e desde então é uma operária da arte. Acredita que pessoas interessadas são pessoas interessantes e a melhor forma de absorver experiências é pelo afeto. Por isso, procura criar e fomentar arte em todas as esferas.