Disciplina positiva e parentalidade positiva: do que se trata, afinal?

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Lia Vasconcelos

“Eu já falei mil vezes e não adianta”, “Cansei, ele não me obedece”, “Minha filha não me ouve”, “Ele faz birra por qualquer coisa”, “Eu não sei mais o que fazer…”.

Quantas vezes já não falamos essas frases? Quantas vezes não ouvimos outras mães e outros tantos pais reclamando, completamente perdidos? Educar filhos é das tarefas mais imensas que temos. E as crianças não vêm com manual de instruções e nem a gente nasce sabendo como ser pai e mãe.

Então, você lê um livro, coloca uma pitada de intuição, deixa o dia-a-dia te levar e torce para dar tudo certo. Mas quem é mãe e pai sabe que as dúvidas e angústias são infinitamente maiores que as certezas e tem horas que a insegurança bate forte e a gente simplesmente não sabe o que fazer.

Trago boas novas! A primeira é que estamos todxs juntxs. Quem nunca teve dúvidas na criação dos filhos que atire a primeira pedra. A segunda é que com uma boa dose de coragem e algum conhecimento, a gente consegue quebrar antigos padrões, talvez até mesmo os padrões segundo os quais você foi educadx, e fazer diferente com nossos filhos.

E se eu te dissesse que é possível educar sem punir nem dar recompensas e criar pessoas solidárias, empáticas, cooperativas e capazes? Vem, pega um banquinho e um café que eu vou te contar.

Imagine uma estrada. Imaginou? Ela tem o lado de quem vem, o lado de quem vai e uma linha fina e tênue no meio, certo? Agora imagine que de um lado da estrada está o autoritarismo e, do outro, a permisssividade. A linha do meio, aquela de equilíbrio mais difícil de se alcançar, é a disciplina positiva que pode ser definida como uma abordagem sócio-emocional que ajuda as crianças a desenvolverem habilidades de vida e que se assenta em três pilares: firmeza, gentileza e respeito.

Tudo começou com Alfred Adler, psicólogo austríaco fundador da psicologia do desenvolvimento individual. Adler passou um período trabalhando com Freud, mas rompeu com ele um tempo depois. Abriu centros de orientação infantil em Viena, Berlim e Munique e morreu em 1937 em meio aos esforços para divulgar sua teoria diante do totalitarismo europeu.

Depois de sua morte, o austríaco e psquiatra, Rudolf Dreikurs, desenvolveu o sistema de psicologia individual de Adler de forma a tornar-se um método pragmático para o entendimento das causas do mau comportamento em crianças e
para estimular a cooperação sem punição ou recompensa.

É nesse caldo conceitual que a doutora em educação e terapeuta de casais e famiílias, Jane Nelsen, se baseou para escrever seus livros sobre Disciplina Positiva. Neles, a norte-americana dá um conjunto de orientações muito práticas para pais que querem ajudar seus filhos a desenvolverem autodisciplina, responsabilidade, além de habilidades e atitudes positivas.

Em 2015, a portuguesa Magda Gomes Dias, certificada em inteligência emocional, educação positiva e coaching, escreveu “Crianças Felizes: o guia para aperfeiçoar a autoridade dos pais e a autoestima dos filhos”. Nele, ela apresenta o modelo da parentalidade positiva que ela define como “uma filosofia que promove a relação entre pais e filhos com base no respeito mútuo e, porque esse respeito mútuo existe, a educação da criança é feita de forma altamente construtiva. Por outras palavras, a Parentalidade Positiva é a forma como qualquer pai quer educar (ciente de que educar não é uma coisa simples): com firmeza e também empatia e generosidade. Dito de outra forma, a Parentalidade Positiva coloca limites claros à criança sem usar as desculpas tradicionais”.

Para ela, pais felizes = crianças felizes. Ou seja, Magda bebe na fonte da disciplina positiva e reforça um elemento fundamental para a equação funcionar: o autoconhecimento. Porque, afinal como já diz a escritora argentina Laura Gutman, a maternidade é o encontro com a nossa própria sombra. Durma-se com um barulho desses!

Nas próximas colunas, vou explicar os principais pontos dessas abordagens cujo objetivo é criar adultos íntegros, saudáveis e felizes!

Vamos juntxs?

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