Ideais de família

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Vivian Wrona Vainzof

Até virar mãe, eu tinha ideais da família redondinha e dourada. Jantaríamos juntos, cantaríamos no carro, leríamos antes de dormir. As crianças ajudariam a guardar seus brinquedos e tirariam seus pratos depois de comer. As lições de casa seriam feitas com esforço, escolheríamos juntos os filmes na TV. Acreditei que na minha casa, irmãos emprestam suas coisas, pais estão sempre disponíveis para os filhos, poderíamos cozinhar juntos aos domingos. No meu mundo, meus filhos escutam meus conselhos e agradecem pela dedicação.

Há uma década que me descabelo por essa família pintada a óleo.

Há poucos meses, as páginas de Felicidade Conjugal, de Tolstoi, me levaram a uma reflexão proposta pelo Dante Gallian, que mediava o grupo de Leitura, que pôs em cheque essa felicidade superlativa.

A personagem Mária vive na Rússia rural e cresce esperando a chance de viver seu grande amor. Apenas depois do casamento ela poderia enxergar além dos limites da fazenda. Prendada e distinta, ela desponta como a mais graciosa frequentadora dos bailes da capital. O marido, vinte anos mais velho, tentou evitar o romance assimétrico mas não resistiu à doçura dos seus dedos ao piano e da sua presença espirituosa. Estavam perdidamente apaixonados. Tudo era ideal. Tão ideal que não podia ser real. Tão perdidamente, que não podiam mais se encontrar.

Um livro singelo e discreto, que transpira poesia uma página depois da outra. Um livro curto mas que não acaba mais de ressoar, por uma razão muito simples: ele revela a humanidade latente e pujante das relações. Ele desnuda o relacionamento do casal sem pudor e revela a intimidade de todos nós.

Recomendo a leitura. Assim como recomendo os Laboratórios de Leitura do Dante como um dos melhores abridores de janelas para as nossas desidealizações. Um convite a olhar para dentro e reconhecer verdades íntimas cheias de arestas, às vezes opacas e descabeladas, sem moldura nem acabamentos.

Pinturas da vida real.