Não abusa

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Vivian Wrona Vainzof

Tenho uma amiga difícil de perder a paciência. Ela não faz yoga, não medita e raramente perde a paz, principalmente com os filhos. Perguntei, certa vez, se ela não brigava com as crianças, nunquinha? “Acho que já aconteceu, algum dia”, ela me disse. Eu não sei com que cara eu pude responder àquela estatística alarmante.

Os filhos dela não são as crianças sem limites que se poderia imaginar, aqueles reizinhos da casa, não, são meninos queridos, educados, simpáticos, bem humorados e interessados. Penso muito nela quando me explodo por dentro e preciso de um reforço para minha recomposição.
Penso neles tentando decifrar as relações familiares que vejo por aí. A minha com filhos, a minha com pais, outras mais. Minha conclusão é que, acima de tudo, a relação deles é respeitosa.
Não é que outras não sejam. É que a criação dos filhos, pelo menos na nossa sociedade, é opressiva. Nossa fala é tantas vezes agressiva que nem nos damos conta. Reprimimos demais. Exigimos o que nem nós, pais, conseguimos. Abusamos da autoridade. Mesmo nessa onda de maré cheia de pais permissivos e filhos autoritários, não acho que muitas famílias escapam da relação abusiva, já que grande parte dos pais cede por exaustão. Um comportamento, de certa forma ilegítimo e, portanto, abusivo também.
E o dia a dia vai saturado de cenas que deveriam ser proibidas pela saúde pública. Censura 18 anos, ou bem mais.
Abuso significa agir de maneira imprópria; é o uso do poder sem moderação; é uma oposição aos bons costumes; é excesso, agressão, humilhação. Abusar é tirar proveito de uma situação de superioridade.
Se a reação é tal que não faríamos com mais ninguém, cuidado, pode ser abuso.
Quando um adulto grita com uma criança, isso é abuso.
Quando puxa pelo braço, isso é abuso.
Quando desligam a TV enquanto alguém assiste, isso é abuso.
Ameaçar ir embora e deixá-lo ali é abuso. Qualquer ameaça é abuso.
Tirar o brinquedo se não emprestar é abuso. Obrigar a emprestar é abuso também.
Arrancar da mão é abuso.
Fechar no quarto é abuso.
Fingir que não escuta porque não quer responder é abuso.
Mandar ficar quieto, parar de chorar já: abuso.
A lista é longa. Coisas que já fiz e que ainda posso fazer e tantas das quais eu me arrependo ou ainda vou. Me dei conta de quantos hábitos corriqueiros são inaceitáveis. Antes de perder a classe, de se exceder, insultar, agredir, é possível comunicar: “não está bom para mim”. A dica é da Daniella Freixo de Faria, psicóloga infantil e mãe que aprendeu a se respeitar para poder plantar e colher o respeito com as filhas.
Respeitar não é obedecer. Respeitar é considerar e aceitar as diferenças de idade, de maturidade, de experiência, de condição, de repertório, de recursos. Respeitar é olhar no olho, é escutar com interesse, é colocar-se no lugar de alguém, legitimamente, sem abusar.
Para quem nasceu menos pacificada que a minha admirada amiga, talvez um pouco de yoga e meditação também não farão mal a ninguém.