O Menino e o Mundo #2- A investigação sonora e a descoberta de um tesouro

Lina Brochmann

* Por Drica Lobo A primeira vez que vi o Menino e o Mundo tive vontade de bater palmas de pé. Resolvi investigar porquê. Através de uma amiga em comum, consegui conversar com o produtor musical, Ruben Feffer e ele me contou algumas coisas que me fizeram entender um pouco mais deste processo todo.

Binho Feffer
Ruben Feffer

Ele me disse que com Gustavo Kurlat, seu parceiro, já tinham trabalhado juntos no “ Garoto Cósmico”. Quando eles entraram nesse processo, primeiro, tudo estava na cabeça do diretor Alê Abreu, o « script » era apenas rabiscos: -Essa não linearidade do filme eram blocos de idéias desenhadas e coladas numa parede, com as passagens do filme. O trabalho foi inteiro construído, pouco a pouco, pedacinho por pedacinho, uma partida de ping pong entre o que estava na cabeça do diretor do filme e os diretores musicais com a ajuda de Erika Marques . O processo foi feito de forma lúdica, em que a fusão das coisas e dos sons fosse essa brincadeira animada, onde se funde e se mistura: pois o som narra a história do menino do início ao fim. Fiquei ainda mais encantada quando soube que todo trabalho foi feito aqui no Brasil.

Há dez anos, seria impossível imaginar um filme com tanta qualidade ser todo feito aqui. Antigamente, quando o filme acabava de ser filmado, ia para Los Angeles para se ter uma boa finalização e mixagem de som. Desta vez não, foi todo trabalho feito entre o estúdio do seu diretor e literalmente o « quintal » da produtora Ultrassom, uma linda casa, no meio de uma família que se formou por afinidades e indentidades culturais muito fortes. Comecei a desvendar um pouco mais deste mistério … pois segundo Ruben “O grande desafio como produtor era entender e fazer com que todas as coisas funcionassem e para isso, saber dosar era o mais importante e o principal desafio.” A maneira como o som deveria ser feito, deveria combinar com as imagens. Ou seja, o som tinha que ser puro como um risco, tinha que ser minimalista, não podia ser repetitivo, deveria ser fácil de entender para falar dentro da criança de cada um, os instrumentos tinham que chegar nas pessoas. A trilha precisava ter essa riqueza de sons do nosso povo, também compor com a riqueza dos traços da animação porém não podia ser regionalista demais. Por isso, se usou um pouco de acordeon, como o sal numa receita, nem demais nem de menos, uma pitada na medida. No final ficou assim: As músicas são aquelas da mandala de abertura « Airgela » e a trilha feita pelo Ermicida « Aos olhos de uma criança » A escolha do Ermicida, que a gente conhece, foiuma aposta para que o filme falasse também com os jovens e ele realmente entendeu e construiu essa letra. Foi totalmente envolvido no processo de criação e o resultado consegue chegar e tocar as pessoas. Depois temos o som, que são todos aqueles sonhos de grilos, feito por Nana Vasconcelos: A respiração apertada feita para contar a saudade da mãe, o próprio silêncio do personagem e todos aqueles pim, pla, plum e apitos que dão alma a cada gesto. O som da massa feito pelo grupo Barbatuques, com vários elementos e com toda a vibração corporal que se tem dos passos e a energia de uma multidão ou a ação do menino, ou mesmo o som de uma chuva feita de palmas. Por fim as falas do roteiro escrito: é pequenino e cita frases de grandes personagens e poetas como Willian Shakespeare, Pablo Picasso, Paulo Leminski, entre outros, inteiramente feitas com o Português invertido. As vozes, da forma que foram feitas, remetem à lembrança da mãe idealizada , saudosa e amada, como é ter uma mãe. A do pai, que mais parece um sonho lúdico, meio imperfeito, assim é a graça de ter um pai. A do menino, feita pelo garoto Vinicius Garcia, , ator de 9 anos; que se identificou tanto com o personagem que parecem mesmo uma só pessoa. Curiosidade: sua mãe, Mel, é a diretora de vozes do filme e contou que quando ele vê um poster do filme pela rua, diz que é ele – a figura do menino. Resultado: o filme ficou com uma combinação ideal entre o digital e o analógico. E você entende porquê quando desvenda este mistério. « O Menino » foi feito com muito amor, pedacinho por pedacinho. Se você é como eu que ainda desconfiava da qualidade do cinema nacional e sempre achava que era melhor não arriscar, vá ver o filme!

* Drica Lobo é mãe e fotógrafa, idealizadora do Projeto Jardins da Infância, um guia singular para um tipo especial de educação.