Sol do ano novo

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Vivian Wrona Vainzof

Acordei com o cheiro da grama cortada do vizinho. Um rapaz franzino, de chapéu cinzento, ia-se pelo declive do jardim fazendo a barra do morro. Era o primeiro dia do ano e a primeira poda da moita da primavera amarela. Essa moita de primavera não era de gostar de apara, fosse qual fosse a estação. Nem outono nem inverno, nem primeiro e nem último dia do ano era bom dia pra tolher o crescimento dos ramos se emaranhando nos outros arbustos, misturando os galhos rosa-claros com os carmins e os violetas.

Manhã de ano novo e o rapaz ia fazendo tudo velho, tudo igual, tudo de sempre, como se o céu e o sol não fossem outros que não aqueles que adormeceram ontem. Despertaram novatos e o homem não viu, não soube, como não soube que ele mesmo já não era mais ele, ou apenas ele. Também não soube que eu o espiava pela fresta da janela.

Refletiram-se no vidro da cozinha um novo céu, um novo sol, um novo suor escorrendo da têmpora, um novo cheiro de grama cortada, uma nova cara para a manhã de ano novo. O homem não viu.

Escutei as novas crianças que corriam e riam naquela manhã ensolarada que se descortinava na frente dos meus olhos, ainda que não as visse.

E como a cortina continuava entreaberta e o jardineiro continuava o serviço, fechei os olhos, tentando saber o que eu refletiria no vidro da janela, da outra vez que eu acordar.