Tókio com crianças: prepare-se para se sentir maravilhosamente intrigado

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Elisa Roorda

Tókio deu um nó na nossa cabeça, mas não no mau sentido. Ela conseguiu nos deixar maravilhosamente intrigados. É o encontro do tradicional com o que tem de mais moderno, das maneiras tímidas e recatadas com as roupas e os cabelos mais doidos, das lojinhas que te deixam louco com tanto som e imagens e o silêncio do metrô lotado, do caos com o zen. E tudo isso, acreditem, da forma mais suave possível. É uma cultura completamente diferente, mas não existe choque.

A Sofia se encontrou. Ela é suave, gosta de longos silêncios e amou a ideia de dormir todo mundo juntinho. A Nina passou a semana toda em plena felicidade, de acordo com ela, mas como é a que mais tem sangue italiano precisava ser lembrada a todo momento que poderia falar mais baixo e que não dava para pular tanto em um apartamento tão pequeno. O Martin amou os trens, os carros malucos, os oniguiris, os cachorrinhos de roupas engraçadas e logo aprendeu e falar “arigatô” e “sayonara” para todos os novos amigos que fazia.

Os japoneses são amistosos, prestativos e calorosos. E se você tem uma criança pequena então, pode esperar os maiores sorrisos e gentilezas! Eles adoram pequeninos assim como gostam de todos aqueles personagens japas fofinhos. E apesar de poucos falarem inglês e de ser muito fácil se perder com tantas placas só em japonês, sempre tinha alguém para nos ajudar.

Não existe calçada na maioria das ruas e mesmo assim pedestres, ciclistas e carros convivem em harmonia. Os espaços são minúsculos! Mas não parece ser um problema. Eles se movem com suavidade e cuidado. Falam baixo, fazem reverências em sinal de respeito e sempre se preocupam se estão atrapalhando alguém. Não tem lixeiras pela cidade. Cada um cuida do seu lixo. Eles adoram uma máquina de bebidas e tem uma em cada esquina. As cinco da tarde toca uma música suave em altos falantes de parques e outros espaços para as crianças saberem que é hora de ir pra casa. E para diversão das meninas aqui de casa, muitos restaurantes adoram expor umas comidas de mentira na vitrine, mas que parecem muito reais! Toda vez rolava uma aposta para ver se não eram mesmo de verdade de tão perfeitas.

Eles são perfeccionistas, detalhistas e dá pra sentir que fazem tudo com tanta dedicação e cuidado que dá até inveja. A gente ficou em um apartamento minúsculo (lógico) em cima de um café super bacana. O café vinha do Brasil, mas nunca tomei um caffe latte como esse no Brasil. E todo o ritual de fazer o café era lindo de ver também. E assim acontece com tantos outros restaurantes. Depois de saciarmos toda a nossa vontade de comer comida japonesa o dia inteiro, resolvemos nos aventurar em uma hamburgueria e foi um dos melhores sandubas que já comemos!

Agora o que mais nos chamou a atenção foi a importância que eles dão para a comunidade. O todo vem antes do individual. Sempre. Não que eles achem que o individual não tenha importância. Só acham que existe lugar e momento para ser expressado. Ken Mogi disse no livro IKIGAI (que ganhei da querida Bia Meyer e recomendo muito a leitura!) que “O homem é como uma floresta. Individual, mas conectado e dependente dos outros para crescer.” E que por isso mesmo, eles aprendem a “modular os desejos e as vontades em harmonia com o ambiente em que vivem para ajudar a reduzir conflitos desnecessários”. Tá aí um ponto importante de reflexão: até onde nossa liberdade individual não atrapalha o todo? Eles vivem isso desde sempre, mas eles devem ter sentido que deveriam explicar melhor para quem vem de fora porque vi várias placas em inglês que explicavam, com muita educação, os “combinados” para uma melhor convivência: no metrô, no trem, no parque e em alguns outros espaços públicos.

No final da nossa semana em Tókio já estava todo mundo falando mais baixo, apreciando mais o silêncio, fazendo reverências sempre que agradecíamos alguém, e entregando nosso cartão de crédito com as duas mãos como se fosse o objeto mais valioso do mundo. Só a parte dos espaços minúsculos que foi mais difícil para uma família de cinco com um mini-terremoto de um ano. E com a Nina, lógico, que falou que não dava para viver em uma casa assim onde não dava NEM pra dar estrela no meio da sala. Algo obviamente necessário de acordo com ela.

E fechamos com chave de ouro com uma fugida até o Izakaya que ficava embaixo do nosso apartamento, logo ao lado do Café bacana. Saímos cedinho, deixamos os três brincando no andar de cima, nos esprememos em uma mesa com um grupo simpático de dez japoneses e foi uma farra! Eles nos receberam super bem (apesar de só dois falarem um pouco de inglês) e as crianças desceram umas dez vezes pra dar oi e ver o que a gente estava fazendo. E a gente achando que finalmente teríamos uma noite a dois. rsrsrsrs

Dicas práticas

  • Wifi

No Japão não dá para viver sem wifi, porque você não vai conseguir se achar sem o Google maps e sem o Google tradutor. Então, uma boa dica é alugar um 4G portátil. Tem várias empresas que fazem isso. A gente fez por essa aqui antes de chegar no Japão e já pegamos no aeroporto: https://ninjawifi.com

  • Onde ficamos

Como em todos os lugares, resolvemos ficar em um bairro mais residencial e perto de um parque. Ficamos em Shibuya, perto do Parque Yoyogi, ao lado do parquinho mais incrível e em cima do melhor caffe latte. O bairro é mais tranquilo, tem uma vizinhança bacana e mais japonesa e fica muito perto da bagunça de Omotasando, se você quiser um pouco mais de agito. Tem várias opções no Airbnb.

Dicas de programas

Tokyo tem muitos mundos dentro da mesma cidade. Não tivemos tempo de visitar todos, mas deixo aqui algumas dicas de bairros e lugares que visitamos.

  • Shinjuku

Este é um bairro cheio de prédios enormes, letreiros luminosos e muito agito! É onde ficam as grandes lojas de departamento, muitas lojas de eletrônicos e vários restaurantes escondidos nos mega prédios. É só descer na Shinjuku Station e sair andando que está tudo perto. Fomos logo no primeiro dia para o Flavio revelar os filmes da câmera antiga dele (sim, ele está tirando fotos maravilhosas à moda antiga) e a Yodobashi Camera é parada obrigatória pra quem curte foto. Comemos em um restaurante que ficava em um prédio próximo, no sexto andar, mas que nunca conseguimos saber o nome porque só estava escrito em japonês (dica: os melhores restaurantes sempre ficam nos andares de cima). Depois fomos ver o Samurai Museum que fica pertinho e foi uma experiência muito bacana! Vimos roupas e espadas antigas de samurais, aprendemos mais sobre a história deles e até teve uma apresentação divertida que as crianças curtiram. Logo depois seguimos para o Golden Gai, que é um bairro mais antigo e que fica incrivelmente escondido no meio daquela bagunça. Terminamos andando à noite no meio daquela agitação diferente da nossa, até a Shinjuku Station.

http://www.sadaharuaoki.com/boutique/tokyo-en.html

https://www.instagram.com/garden_house_crafts/

  • Shibuya, Harajuku e Omotesando

São três bairros muito próximos, mas bem diferentes. Vale alguns dias para andar por tudo.

Ficamos em Shibuya e recomendo muito! Logo ao lado da Yoyogi Koen Station tem vários restaurantes, cafés e lojinhas descoladas. Dá pra ir andando também até o Parque Yoyogi e vale dar uma passada no nosso Café preferido: Little Nap Coffee Stand. Logo na frente tem um parquinho maravilhoso, daqueles que as crianças saem com lama da cabeça aos pés, escorregam no escorregador com água e assam marshmallow na fogueira. Então se você curtir este tipo de programa já vai com uma muda de roupa pra depois.

Do outro lado do parque está a Meiji Jingu Shrine. Esse é um dos templos xintoístas mais lindos do Japão! Tem um parque em volta dele com árvores enormes e só pra chegar lá já é um programa super gostoso. Logo na saída tem uma lojinha e um café, que valem uma passada.

Saindo do templo, você já está na Omotesando, uma rua enorme com calçadas e árvores dos dois lados, e com lojas super refinadas. Ela fica entre a Harajuku Station e a Omotesando Station. Resolvemos passear por lá para levar as meninas até a Kiddyland, uma loja de seis andares só de brinquedos, que me deixou completamente desnorteada, mas que vale a visita. Na volta nos perdemos por algumas ruas menores e demos de cara com lojinhas e cafés super simpáticos.

Este é um bairro tranquilo, com lojas lindas, pequenas galerias de arte e cafés maravilhosos. É um bairro mais sofisticado, mas muito acolhedor e cheio de famílias passeando aos finais de semana. Dá pra se perder por horas nas ruas pequenas. Chegamos direto na Tsutaya Books (onde dá pra passar um dia inteiro!) e depois nos perdemos pelas ruazinhas cheias de outras lojas, galerias e cafés interessantes.

  • Shimokitazawa

Um dia resolvemos passear pelas simpáticas ruas deste bairro vintage e moderninho. Ele é cheio de lojinhas menores e divertidas e a Detour à Bleuet é mais uma daquelas para passar horas e tomar um café.

  • Roppongi

Fomos até a Tokyo Tower, que tem uma vista linda da cidade inteira! Dá até para ver o Monte Fuji ao fundo em um dia bonito. Vale uma visita. Saímos na hora do almoço e demos uma parada no Soba & Co. Tivemos uma experiência incrível!

Depois pegamos o metro e descemos em Roppongi hills, onde tem um mega complexo cheio de lojas elegantes. Não estamos no clima de compras nesta viagem, mas o passeio foi legal para ver o Mori Art Museum e, logo embaixo, tomamos um café, passeamos pelo Mohri Garden e fizemos umas compras de comidinhas deliciosas no Grand Food Hall.

Para quem não quiser ir até a Tokyo Tower, dá pra ver uma vista bem bonita também no Tokyo City View, que fica logo em cima do Mori Art Museum.

https://www.grand-food-hall.com

https://tcv.roppongihills.com/jp/

  • Experiência

Resolvemos arriscar fazer uma daquelas experiências que o Airbnb sugere e foi muito bacana! Fizemos uma aula de culinária japonesa com uma japa figura e querida, a Yukari. Ele levou a gente até o Food Show para nos ensinar sobre os alimentos e como comprar cada coisa. O supermercado é incrível e tem de tudo! Vale uma visita para conhecer ou para já resolver o jantar antes de ir pra casa. E depois fomos para o estúdio dela e lá passamos umas horinhas cozinhando e depois comendo. Experiência incrível!

  • Ikigai

Ikigai é um conceito japonês antigo que pode ser a chave para uma vida longa, feliz e saudável. Não existe uma tradução direta para o termo. O mais próximo que se pode chegar é a descrição de Ken Mogi no livro: “Ikigai é a sua razão de viver. É o motivo que faz você acordar todos os dias.”

Segundo Ken Mogi, é muito importante identificar as coisas que você gosta de fazer e que te dão prazer, porque elas dão propósito à vida e levam a uma existência longa e feliz. E não se trata apenas de viver por um longo tempo, mas de aproveitar a vida e saber o que você quer fazer com ela. Ou seja, de encontrar seu propósito de vida.